sábado, junho 02, 2007

Carta de Caio F.

minha primeira contribuição é uma carta de caio,ele fala por mim,tamanha é a minha intimidade com sua escrita: Lisboa, 22 de junho daquele mesmo ano.
Sylvia
O Tejo não brilha na minha janela. Daqui, vejo apenas outras janelas estreitas e dentro delas, não me atrevo sequer a olhar. O pudor alheio é uma das muitas manias que adquiri com meu pai e sabes, não gosto de livrar-me do desnecessário. Na manhã de hoje havia café forte demais para a delicadeza do acordar e um queijo mole, que mesmo não tendo sido pensado para tal, gruda na faca como manteiga gelada e quebra a bolacha em duas iguais. Antes assim. Que a solidão fique apenas no canto esquerdo do meu lábio. Mas mudemos o assunto. Pois hoje escrevo para dizer que finalmente entendi o tal conto que indicaste como leitura. É sim apenas no meio da estrada torta que percebemos que o encantamento, com todas as suas malícias e brilhos feitos de excesso de água nos olhos é uma das muitas formas de amar. Somos capazes de nos encontar por miudezas de alma, cães minúsculos, janelas azuis abertas para árvores e até pelo que faz algum mal, visto que a gente toda sabe que a dor é apenas o verso do gostar. E por essas pequenices brilham os olhos, levantam os pés e braços de manhã, digitam os dedos no tlec, tlec teclado de barulho oco e alto, serve-se a água do bebedor transparente. E assim, encantar-se vira um vício querido, parte da personalidade nascida só, não daquela outra que mostramos despreocupados pois foi moldada pelos livros, filmes e aprenderes. Esta personalidade, erva-daninha de fundas raízes passa o tempo a tentar tirar o véu de nossos olhos, fazendo-nos encantar a exaustão até que em um momento que geralmente dura dois, quatro segundo, deixamos que afinal, comece a doer o amor.
Já pensaste sobre? Pode dizer. Não mordo mais. Caio

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