sábado, junho 09, 2007

Enlouquecer para não dançar

No começo, eu apenas achava que os helicópteros rondavam a kitchenete, batedeiras sórdidas me espreitando, esperando que eu metesse a cabeça na janela girando confusos sobre a antena externa, mas até aí ainda havia o bourbon na geladeira, uma maçã mordida sobre a guitarra e o ballet desritmado de Martin Sheen no vídeo, então eu saía na madrugada, invariavelmente bêbado, cruzava os amigos e dizia pra eles entre infindáveis goles de cerveja: “eu sei por onde ir, eu sei muito bem por onde ir”. E todas as bobagens eram perdoadas em nome da minha infância prolongada, meus atos de solidariedade, minha lealdade desmedida, minha fidelidade militar. Mas havia alguma coisa me rasgando o peito, escancarando meus segredos, me deixando nu sobre a mesa de bilhar, eu não sei, talvez a paixão não admitida, ou um cara com 18 anos morrendo sozinho numa selva asiática com o retrato da namorada, os mosquitos decolando com suas doenças do sono e uma chuva intensa, gelada, me resfriando na calçada, me curando a ressaca, me levando de volta, aí eu disse pra mim mesmo: “a loucura anda de táxi”. Passei a andar armado, não fazia mais a barba, não cortava o cabelo, não escovava os dentes, apenas esperava, apenas pedia a Deus que ela se manifestasse. Eu estava pronto pra ela. Foi aí que comecei a acreditar nos helicópteros, nela fazendo barulho do outro lado da parede, ouvindo Annie Lennox em alturas obscenas só pra me levar ao inferno. Foi aí que eu pensei: “a loucura fotografou a minha alma e a vendeu pra um japa maluco na feira hippie”. Eu me recusava a freqüentar terapeutas, a dar com a língua nos dentes, a conviver com enfermeiras me dando de comer, foi aí que esqueci Deus. Tomava comprimidos pra dormir, as hélices giravam sobre a minha cabeça e ela contava que passou um mês em São Paulo andando às tontas pela Paulista, rasgando as folhas dos calendários, se surpreendendo com happenings inesperados, nesse dia eu pensei: “ela quer me deixar louco” ou coisas como “a loucura tem olhos sonolentos”. Agora eu forço a visão na direção das gueixas, faço propostas inaudíveis para as apresentadoras de tv, bebo bourbon no gargalo e sei que não há nada mais triste do que um cara bebendo sozinho, entrando em bares e sacando que ela já tá com outro, percebendo que na verdade não se significou muita coisa, só a agulha na veia fazendo com que a loucura percorra os canais numa velocidade incalculável, o suficiente pra me deixar dizendo bobagens, desta vez imperdoáveis ao telefone. Quantas marcadas em nome de uma suposta sensibilidade nunca antes detectada. Agora percorro de novo os bares, esperando encontrar uma juke-box e uma garota solitária. Eu tenho uma ficha, já sei que os helicópteros estão mesmo atrás de mim, eu me lembro de Deus e peço a Ele que desta vez eu enlouqueça com suavidade.

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