Havia, no centro daquele país, uma enorme planície verdejante; as únicas coisas que quebravam aquela paisagem era um lago, situado em seu interior e, mais ao fundo, um grande monólito. A pedra era a mais bela até então vislumbrada e todos os visitantes daquele lugar ficavam deslumbrados com a sua imponência. À despeito de toda essa atenção a ela dispensada e até mesmo das suas várias companhias – alguns seixos, lagartos, arbustos –, a pedra se sentia inquieta, não se satisfazia com aquela pairagem e nem com seus companheiros.
Todas as noites, o grande monólito ficava a observar a imensidão do céu; contemplava as estrelas e sonhava, um dia, poder conhecer outros mundos que não fosse aquele onde era prisioneira. Mas, quando chegavam os primeiros raios que anunciavam cada manhã, para o seu desconforto, a pedra contemplava os mesmos seixos, conversava com os mesmos animais e arbustos; mirava o lago e, diante daquela mansidão, uma infinita inquietude tomava conta do seu pétreo ser. Ansiava sair daquele lugar, mas não sabia como; estava, por toda eternidade, fixa àquele chão e à condição de pedra. Bela, é verdade, mas faltava o principal – a liberdade.
Alguns séculos se passaram; a paisagem, por vezes, se modificava; até mesmo o lago não era o mesmo todo o tempo, mas a pedra continuava incólume. Tudo se modificava ao seu redor, ao sabor do tempo e das estações. Tudo, menos ela. Mesmo assim, notou que, com o passar dos anos, a sua coloração mudara, estava com uma cor mais definida, até mais bonita e, ouvidos atentos, notava que, agora, os visitantes olhavam-na de um modo diferente, como que querendo absorver todo o seu esplendor.
Num desses dias, chegou um visitante diferente dos demais. Olhou o monólito de uma forma totalmente nova e disse para a pedra que, com a sua aquiescência, a levaria daquele lugar para um mundo totalmente novo. Pediu que ela refletisse e que, dali a alguns dias, voltaria para saber de sua decisão.
A pedra entrou em polvorosa; a cada hora que passava, tornava-se mais bonita e brilhava de uma forma indescritível. Perto dela, havia um seixo, que ali se alojara há tempos; esse seixo havia rolado de uma colina distante, após uma grande tempestade, e caído no lago; muitos anos depois, conseguira voltar à terra firme. O seixo achou por bem conversar com a pedra. Contou das coisas que havia presenciado pelo mundo; falou das coisas que haviam além da planície; dos perigos e das belezas que o monólito poderia encontrar. Disse ainda que a melhor época da sua vida fôra aquela vivida no fundo do lago – a pressão das águas moldava-a lentamente. Falou ainda da visão que tinha quando estava no alto da colina e da força do vento, que a jogava de um lado pro outro, a seu bel-prazer. Num último esforço, mostrou que seu tempo estava prestes a terminar, pois antes era pedra e agora, apenas um seixo que, dentro de alguns anos, voltaria a ser pó. O monólito a tudo ouviu sem, no entanto, se deixar convencer. Ao ver que o seu exemplo havia sido demonstrado em vão, o seixo chegou até mesmo a agredir a grande pedra pensando que, com aquele ato, iria demovê-la daquela idéia fixa.
Tudo em vão. Dias depois, o homem voltou para saber a resposta da pedra. Sim, ela estava disposta a acompanhá-lo. Algum tempo depois, várias máquinas também vieram e cortaram a pedra, deixando apenas a sua base, rente ao chão. Com grande dificuldade, colocaram-na num veículo, e deram por finda a primeira etapa do serviço. A pedra não cabia em si de contentamento. Chamou seus amigos para deles se despedir; todos vieram - os lagartos e outros animais; os arbustos acenaram alegremente e até o lago, embalado pelo vento, formou ondas de despedida; o único que não se despediu foi o seixo: havia sido esmagado pelas máquinas e, rapidamente, se misturara à areia ao redor do lago.
No início da tarde daquele dia, o monólito empreendeu a grande viagem. A cada quilômetro percorrido, se maravilhava com todo o panorama que se descortinava ante seus olhos; montanhas, vales, rios, pequenas aldeias, crianças brincando despreocupadamente. . . No dia seguinte, a grande pedra finalmente chegou ao seu destino - uma grande cidade, com seus prédios que quase tocavam os céus. A pedra não sabia para onde olhar, era tanta novidade que seus olhos não davam conta! Pouco tempo depois, o veículo que a transportava parou em seu destino final, um galpão onde estava escrito “material de construção”. E, desse momento em diante, começou a acontecer o que tanto o seixo tentara avisar; cortaram o monólito em blocos cada vez menores, até conseguirem reduzi-lo a centenas de pequenas pedras.
Surpresa, mas impassível à nova condição e até mesmo à dor, a agora “múltipla-pedra” ainda perseguia o seu objetivo, de conhecer o mundo e, quem sabe, essa não seria a melhor forma!?! Múltiplos corpos seus, viajando ao mesmo tempo, para diferentes lugares. . . Alguns dias depois, as pequenas pedras souberam o destino lhes reservara. Serviriam como revestimento para uma suntuosa moradia. Já era tarde para retroceder; novamente estava presa, dessa vez com argamassa e, por todo o resto de seus dias, seria pisada pelos moradores daquela mansão. Agora, tinha como companhia vários móveis que, desavisadamente, chegavam e iam embora, além das paredes que, anos depois, o tempo encarregou-se de corroer.
Ninguém sabe, até hoje, dos sentimentos daquele monólito e se ele gostou de sua nova situação. Sabe-se, apenas, que lá na planície, jamais conseguiram esquecer da grande pedra. Os animais se encarregavam de passar, de uma geração para outra, a lenda de uma grande pedra que dali fora arrancada; até mesmo o lago, vez por outra, chorava, acompanhado pelo vento, a ida da pedra. E o seixo que virou pó deu um jeito de se acomodar perto da base do monólito que, ano após ano, era soterrado pelo tempo que, inexoravalmente, passava.
Smyrna:
Esta é a única forma que conheço para pedir desculpas e, acima de tudo, para falar das coisas que sei. Não sei se o que sei é o certo, apenas que falo do que já vi. Somente prefiro a liberdade – mesmo com limites, do que uma vida enquadrada numa existência suntuosa, mas vã.
Apesar disso, apenas você sabe a resposta. Persiga seus planos e sonhos e perdoe a intransigência daqueles que, um dia, empreenderam a grande viagem e que conseguiram voltar – acomodados, é verdade, mas sobreviventes!
Acima de tudo, saiba que somente quis te alertar. Mas isso também não é o certo. O certo é viver e correr riscos, senão, a vida não valeria a pena. . . Quem sabe, a tal pedra não esteja feliz, pavimentando o Taj Mahal?!?
O que antes foi seixo hoje é pó. Poeira levada ao vento. Grande pedra, o mundo é todo seu. Escolha o lugar em que pretendes fixar a sua imponência e o resto – o resto é pó.
Fabiana
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