quarta-feira, junho 06, 2007

Os viajantes do saber

Não se sabe de onde vieram aquelas pessoas; provavelmente, do Deserto de Urda, que se situava no centro do continente. De certo, apenas o destino de todos: aqueles homens e mulheres tinham um só desejo, que era o de conhecer o Grande Oceano Skuld. Na caravana, havia gente de todas as raças, de todos os credos e cada uma daquelas pessoas tinha um objetivo diferente nessa jornada. Muitos queriam apenas sentir a água salgada e mergulhar nas ondas, outros queriam fixar morada na praia; alguns poucos queriam atravessar o mar e conhecer outros continentes; outros não sabiam por que estavam alí; talvez por falta de perspectivas ou de objetivos.
Eram quarenta viajantes, tuaregues do “querer saber”. Alguns seguiam no anonimato, outros tantos eram conhecidos por todos, uns poucos conseguiam ser reconhecidos. Frigga, Mimir, Dafne, Ceres, Ismênia e Heimdall eram os nomes de alguns deles. Haviam também outros tantos, como Faetonte, um rapazinho mirrado e tímido, que sempre andava triste, parecendo que estava perturbado com algo. Sem falar de Loki, criatura intragável, que quase todos queriam ver longe do grupo. A caravana era liderada por um Conselho composto de anciãos e anciãs, dentre eles se destacando Dike, Nereu, Crono e Odin.
Mas não seria fácil chegar ao destino. O deserto era medonho e logo tragaria alguns dos incautos que o desafiaram: Faetonte foi o primeiro deles. Na maior duna que tiveram de atravessar, desapareceu; ainda tentaram segurá-lo, mas foi em vão. A força do deserto era maior do que o esforço quase sobre-humano de seus companheiros. Logo depois, houve uma tempestade de areia e Loki desapareceu no meio do vendaval. Foram dar falta dele no outro dia mas, ao contrário de Faetonte, todos se alegraram com o desaparecimento de Loki, até mesmo o Conselho de Anciãos.
Durante cem dias, enfrentaram a fúria do deserto. Em meio ao silêncio, apontavam no horizonte alguns poucos oásis onde todos iam se refrescar e se refastelar debaixo das tamareiras. Logo, as víboras e as najas foram ficando para trás; a paisagem foi se modificando; a vegetação rasteira foi dando lugar a árvores de copas frondosas. Era a Floresta Verdandi, lugar tenebroso, repleto de pântanos, areia movediça e animais medonhos. Nesse ínterim, Frigga e Ceres foram ficando para trás; de repente, lembraram que tinham muitos afazeres, que haviam deixado os parentes nos seus lugarejos e que, pensando bem, talvez não fosse de grande valia chegar até o mar. Dafne e Ismênia bem que tentaram, suplicaram, mas foi em vão; as duas estavam decididas. Os líderes da caravana terminaram por concordar com o retorno de ambas, não sem antes provê-las de mantimentos para suportarem a volta.
Passadas mais de duzentas luas e muitos perigos e perdas, já podiam sentir o cheiro do mar, já podiam ver as gaivotas sobrevoando os céus. Em pouco tempo, o vento salgado já queimava os rostos cansados da viagem. A praia não tardava a aparecer! Mais alguns dias e todos chegaram ao seu destino. A água salgada lambia os pés daqueles viajantes que não se continham em seu deslumbramento. Como era imenso o mar! A partir daí, já não havia caravana e sim, pequenos grupos separados pelo destino. Ismênia e seu irmão resolveram se estabelecer ali mesmo, de frente para o mar. Heimdall foi ensinar em outro continente; Mimir conseguiu um posto de sacerdote, enquanto Dafne decidiu singrar o oceano e continuar a sua busca rumo ao conhecimento.
De todos os que ficaram pelo caminho, apenas Ceres e Frigga eram lembradas por todos da caravana, especialmente por Ismênia e Dafne. Todos queriam saber se elas tinham conseguido retornar. Alguns mensageiros logo se encarregaram de trazer notícias. Poucas luas depois, voltaram com a resposta. Frigga voltou ao seu velho ofício, de consertar colunas tortas e danificadas. Ceres continuou a mexer com receitas. Não se sabe, porém, o que se passava em suas cabeças. Se estavam arrependidas por não terem terminado a viagem, se estavam satisfeitas com a vida que continuavam a levar. Se sabe apenas, o que elas perderam quando desistiram. Ah, se elas pudessem estar com toda aquela gente que sempre quis ver o mar! Elas, certamente, iriam se encantar com o mistério das águas... Mas, preferiram o conforto do que já estava construído, ao imponderável da aventura.
...Enquanto atravessava o Grande Oceano Skuld, Dafne pensava na jornada que havia vencido, e em todas as pessoas que agora também faziam parte de sua vida. Tinha a certeza que seria muito difícil voltar a reencontrar aquelas pessoas, já que não sabia nem se conseguiria chegar ao seu destino, devido aos grandes perigos que certamente enfrentaria naquela travessia; além disso, o lugar aonde estava indo era totalmente selvagem! Lembrou do dia em que se despediu de Ismênia, Mimir e Heimdall e do grande luau que fizeram para comemorarem as suas novas vidas. Lembrou com tristeza de Ceres e Frigga; não conseguia entender como, sendo escolhidas, preferiram desistir e voltar à mesmice de vidas modorrentas em meio à poeira do deserto. Dafne fitou o horizonte; não sabia porque, mas estava triste. Talvez porque agora estivesse só. Ah, se ela pudesse prever o que lhe aguardava em seu novo mundo!...


por
Fabiana Agra

Nenhum comentário: