quarta-feira, junho 06, 2007

A gralha e a gaivota

Era uma vez uma gralha que, desde filhote, se perdeu dos seus iguais; ela vivia a voar, a voar, em busca de companhia. Sua plumagem se confundia com as negras noites em que ela buscava abrigo do escuro, da chuva, do medo de ser devorada por predadores. Uma gralha solitária, embrutecida pelos infindos vôos fracassados e pelo capricho do vento, que soprava sempre contra as suas asas. Uma gralha amargurada, que comia os vermes que a terra proporcionava-lhe vez por outra. Uma gralha sem ninho, sem companhia e que, por onde passava, era logo expulsa por outros pássaros...

E a gralha seguia o seu caminho. Sempre só, em busca de alimento, companhia, dos seus iguais. E, dia após dia, ela seguia seu curso sempre pro leste até que, num dia barulhento, começou a sentir um cheiro diferente. Aquele cheiro, misturado ao barulho que ouvia, na verdade prenunciava a proximidade do mar. Aquela visão quase cegou a gralha – uma imensidão azul, quase se confundindo com o céu – foi a coisa mais bonita que ela tinha visto até aquele dia. Logo, milhares de aves voaram ao seu redor, fazendo perguntas e mais perguntas. A gralha logo tratou de se afastar, antevendo o que aquelas gaivotas iriam fazer com ela. Voou até um rochedo alto e lá ficou contemplando o vasto mar.

Eis que, repentinamente, uma gaivota pousou ao seu lado e começou a observa-la. Em pouco tempo, já estavam voando juntas, para a preocupação das outras gaivotas, que viam com desconfiança aquele estranho casal: um, negro como a tempestade; a outra, branca como a espuma do mar. E a gaivota passou a ensinar tudo o que sabia para a solitária gralha. Ensinou-a a pescar os peixes que abundavam naquele lugar e logo a gralha esqueceu do gosto dos vermes. Ensinou-a também a importância do viver em grupo, da companhia, do ninho.

Todos os dias, a gralha tentava se aproximar do bando de gaivotas, mas em vão. Suas tentativas eram vistas com desconfiança pelo bando, que tratou logo de banir a gaivota rebelde para bem longe do mar. E assim partiram. A gaivota receosa do que estaria por vir e a gralha ansiosa em mostrar todos os lugares por onde havia passado. Aí as diferenças começaram a surgir: a gaivota não conseguia se alimentar do que vinha da terra e sentia saudades do cheiro do mar e das suas companheiras. A gralha, por sua vez, não conseguia compreender a tristeza da companheira e se afastava.

Passaram os dias, passaram meses. Até que, num dia sem sol, a gaivota viu o mal que a gralha havia lhe causado. Por sua causa, tinha sido banida para sempre da companhia de suas iguais e, o que era pior, aquela gralha parecia ser o que todos os outros pássaros da redondeza falavam: uma ave estranha e traiçoeira, que andava sozinha porque era má. E assim foi; disse tudo o que pensava da gralha que, sem entender nada, ficou só, naquele rochedo desnudo, vendo a gaivota desaparecer ao longe.

A gaivota voltou para o mar e se aproximou das antigas companheiras, que terminaram por aceita-la de volta. Ela muito se esforçava para esquecer os dias que passou perto da gralha. Logo as suas companheiras deixaram de fazer perguntas e a gaivota passou a tocar a sua vida. Todos os dias, fazia seus vôos rasantes na água e trazia o alimento pro ninho.

Até hoje, ninguém sabe da gralha. Muitos acham que ela continuou o seu caminho como sempre havia sido: sempre só e, se passasse perto de outros pássaros, seria sempre afastada de suas companhias. Muito tempo depois, uma águia disse que sabia do paradeiro da gralha; falou que ela havia se perdido entre as altas montanhas do centro do continente gelado e que, sem comida, havia perecido.

Mas logo, as gaivotas esqueceram da gralha, que nunca havia sido lembrada por ninguém. Na verdade, nem ela própria sabia de si. Apenas que nunca iria esquecer da doce companhia da gaivota e dos lindos dias de sol que haviam passados juntos.


Essa é a estória de uma gralha, que bem poderia ser de a estória de uma pessoa solitária e que as outras a julgam má.
Mas, um dia, ela terminará acreditando que realmente é má.
Às vezes, nós julgamos os outros pelas suas diferenças e preferências.
Esquecemos de perguntar se, em seu interior, bate um coração desesperançado que, de tão descompassado, não sabe mais o que é compartilhar.
Esquecemos de esperar pela metamorfose, e notamos apenas a larva que esconde a beleza da borboleta.


28/03/2002

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