quarta-feira, junho 06, 2007

O passado e o sonho

Hoje, partículas do meu passado voltaram a fazer parte do meu eu. Estava em uma livraria, rodeada por milhares de títulos e autores quando, num rompante, eis que surge alguém por entre as prateleiras. Era o meu amigo anarquista. Reconheci-o instantaneamente, pois ele quase não mudou nesses oito anos; apenas a barba está bem maior: uma barba loira, rala, porém comprida, emoldurando o sorriso maroto que conheci no apogeu dos meus anos dourados. Rogério me cumprimentou e ficamos alguns minutos relembrando o passado; indaguei da sua vida, que continua a mesma: casado com a mesma mulher, acreditando no mesmo ideal; o que diferiu da última vez que nos vimos foi o número de filhos; agora são quatro. Ele me falou de seus planos, do livro que está para lançar no próximo sábado; perguntou como eu estava. Falei que muito bem, buscando outros caminhos, mas numa boa... Depois de algum tempo, nos despedimos. Ele foi tratar do lançamento do seu livro, enquanto eu continuei a buscar alguns outros para ler, afim de me desligar um pouco da rotina.
Mas a imagem do meu antigo amigo não me sai da memória. Por que as coisas têm que ser assim? Rogério em quase nada mudou: os mesmos ideais anarquistas, o mesmo sonho revolucionário de mudar o mundo. Fico pensando: e eu, em que acredito agora? Quantos sonhos sonhei e quantos sonhos abortei por covardia e conveniência? Quando éramos companheiros de curso, alimentávamos os nossos sonhos; ele continuou acreditando, enquanto eu abdiquei dos meus ideais, desisti da utopia. Acho que me tornei cética, uma desiludida, talvez...
É, meu amigo. Foi bom te encontrar. Foi bom que a tua imagem risonha e tranquila me colocasse contra a parede do óbvio e do ponderável. A tua autenticidade me faz ter vontade de repensar a minha vida; mas será que o sonho pode retornar? Não sei. Talvez seja tarde demais para voltar. Talvez o cotidiano e a batalha de cada dia tenham vencido os ideais da garota insatisfeita que clamava por uma revolução. Acho que já é hora de eu voltar para os meus livros de Direito, esquecer daqueles inesquecíveis anos do início da década de 90 e amargar para sempre o desgosto de não ter conseguido perpetuar o sonho...

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