quarta-feira, junho 06, 2007

O vendaval do ser - by F.Agra

A célebre frase de Karl Marx , “tudo que é sólido desmancha no ar”, é uma constante em nossas vidas. Temos a impressão, na maior parte do tempo, de que todas as coisas – os relacionamentos, os amigos - são transitórias: assim como chegam, partem, muitas vezes, sem ao menos olharem para trás. Essa incerteza, essa inquietude, é própria dos nossos tempos; dias frenéticos que parecem não serem mais constituídos de 24 horas, de tantos projetos e afazeres que temos de dar conta. Então, é num momento como esse, que cai sobre nossas cabeças a certeza da finitude da vida: a cada dia, a cada minuto, se esvai um pouco de nossa existência. A vida é então comparada a um imenso aeroporto: pessoas indo e vindo ininterruptamente; sorrisos e lágrimas misturando-se em tênues, fluidos instantes. Como bem disse Nascimento, de encontros e despedidas são feitos os nossos momentos.
E sempre arranjamos vilões, para explicarmos a efemeridade da vida. A maioria de nós, poetas, culpa a modernidade por este estado em que o homem se encontra - a “coisificação do indivíduo”: cada vez mais, o homem necessita apossar-se de um maior número de coisas para ser. As coisas adquirem personalidade própria e subjugam o homem, despindo a sua alma. Criamos necessidades que terminamos por não mais entender; são as necessidades “desnecessárias”: é imperativo que se compre o carro “último tipo”, a roupa de determinada griffe, para que haja uma satisfação pessoal, para que nos sintamos mais felizes. Mas eis que, mal saímos da loja, aquele objeto de desejo nada mais significa, não dá uma satisfação duradoura a quem o adquire. E a vida segue o seu curso. Precisamos trabalhar cada vez mais, para adquirir cada vez mais bens e, no final, as coisas não têm um verdadeiro significado para nós. O mundo da aparência toma o lugar da essência e a realidade é eclipsada pelo sol que nunca se põe, o sol da insatisfação, do “querer-ter”, em detrimento do “vir-a-ser”. Assim, nos agarramos a desejos fugazes, a pequenos prazeres; acomodamos a nossa existência à materialização de nossos desejos consumistas. Perdemos a capacidade de sermos sedentos de saber e nos tornamos sedentários, numa existência pequena. Mas, o que é pior: perdemos a maior parte do nosso finito tempo de vida buscando a felicidade nas coisas!
Se transportarmos a frase de Marx para uma acontecência real, notamos que, num grande vendaval, as coisas pesadas são destruídas; casas e carros voam pelos ares; árvores são quebradas, são esfaceladas pela força contida na ventania. Mas, quando chega a calmaria, nos damos conta de que só restaram ao nosso redor as folhas das árvores. As folhas, por serem leves, não são destruídas; elas flutuam no redemoinho e caem, intactas, aos nossos pés. Após a ventania, um sem número de outras folhas, de papéis, também terminam por chegar ao chão; são as palavras que escrevemos, que sobrevivem à toda sorte de intempéries; são elas, também, as identidades que adquirimos, a fim de podermos sobreviver...

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