sábado, junho 09, 2007

So slow the rain

Eu fiquei no fundo do bar, no meu oitavo whisky. Fiquei sentado sozinho, vendo as garotas dançando. Minha amiga Raquel se destacava com selvageria sensual. Não era novidade pra mim. Fiquei bebendo e pensando em como as pessoas são tristes e desamparadas. Alguma espécie de Deus apenas as colocou por aqui, sem nenhum conselho, um drink grátis ou uma promessa de um cartão postal no fim do ano. Ele apenas as colocou por aqui e as pessoas dançam como se expulsassem a devastação do seu convívio diário, do seu vulcão interno. Ele não nos avisou da insegurança, das palavras ditas com irresponsabilidade na noite escura. Ele não nos falou da solidão irrefreável. Ele sequer deu o tapinha sacana nas costas. Ele foi embora sem olhar pra trás e nos deixou por aqui, irrecuperavelmente amaldiçoados. Então dançamos desvairadamente ou ficamos sozinhos no fundo do bar. Quando o segurança nos expulsou, nem tentei contra argumentar. Pedi um copo descartável, derramei meu whisky nele e fui embora, sozinho, do jeito que sempre me imaginei. Numa rua escura de um Rio de Janeiro excessivamente bonito. Engraçado como nunca me imaginei acompanhado. Ando por aí alguns amigos legais. Já namorei e já casei com mulheres estupidamente bacanas. Mas sempre me imagino assim. Sozinho, com as persianas fechadas e nenhum tipo de música. Só a geladeira roncando e a televisão sem som com algum desenho animado idiota. Alguma rua escura e a ameaça que vem do silêncio e do odor de lixo. Eu fiquei lá vendo o meu amigo Cadu chorar desbragadamente no meio do ensaio enquanto falava o meu texto da mulher que o deixou. Ele pedia desculpas e eu murmurava: “Vai aí, Brother, se não servir pra isso, pra que mesmo que serve?”
Quando fui embora do Rio de Janeiro, chovia. Uma chuva mais forte e mais fria que a chuva dos sonhos da noite anterior. Enquanto o táxi rodava triste pelas ruas do Rio, pensei em inquilinos indesejáveis, em torneiras pingando, em um presidiário lendo a bíblia e chorando por acreditar que Deus o perdoou. As placas molhadas de chuva não me indicavam caminho nenhum. Apenas orientava o motorista que parecia saber decifrar os seus códigos. Senti um calafrio quando vi o carro tombado no meio da rodovia. Fiquei imaginando se aquele cara pensava em morte segundos antes. Se ele assim como eu, sabia que dançamos pra não enlouquecer. Se ele assim como eu, pensa em garotas com nomes estranhos, em lugares onde a garganta fica tão seca e onde o coração aperta de um jeito incontrolável. Fiquei pensando que essas coisas são assim pra todo mundo, só que tem gente que nunca enfia a mão até o fundo do pote. Fiquei pensando que tem gente que só come as azeitonas que estão flutuando. Fiquei pensando que tem gente que tem certeza que é feliz. Por um momento, senti pena deles. Mas foi só por um momento.

Nenhum comentário: