Kelle chegou sem avisar. Quando menos esperávamos, eis que ela já havia conquistado para sempre o seu espaço por essas plagas. Não sei se foi o sotaque, se foi o jeito despojado, o fato é que, em pouco tempo, ela já era uma de nós. Aquela jovem não temia obstáculos e com a mesma naturalidade que recebia os aplausos, enfrentava as intempéries. Lembro que, nos tempos de abundância, Kelle nunca se vangloriava; tampouco se desesperava em tempos de dificuldades. De fato, ela foi o fiel da balança entre nós, o ponto de equilíbrio em uma turma de amigos dos perdidos anos oitenta...
Lembro dos doces sonhos da nossa juventude, das ilusões que alimentavam as nossas aventuras; das festas e farras; das viagens, dos piqueniques, das caronas que pegávamos. Lembro das barras que enfrentamos. Nas horas mais difíceis, Kelle sempre era a mais racional e terminava colocando juízo nas cabeças de todos nós. Ah, como torcemos quando ela foi passar uns meses no Canadá – para nós era motivo de orgulho dizer pros outros “tenho uma amiga no Canadá!” E esperávamos como se espera chuva, por notícias; e corríamos pro telefone - era uma delícia ouvi-la falar da neve, dos bichos, das árvores, das pessoas, de tudo enfim.
E quando Kelle e Rege foram morar em Campina Grande? Ah, para nós, tudo era desculpa para comemoração, até mesmo quando tínhamos apenas cuscuz seco – ou repolho com ovo – para o jantar. Ela conseguia transformar tudo em banquete e qualquer coisa era motivo para celebrar a vida. Aquela cidade ensinou muito a todos nós e Kelle era a que estava mais atenta, para reclamar dos excessos, para vigiar os perigos em que nós – eu particularmente – conseguíamos nos meter.
Foi nessa época que o tempo, esse deus inglório, começou a mostrar a sua face. A juventude foi cedendo espaço para as responsabilidades. Cada um de nós começou a trilhar por caminhos diferentes. Uns casaram, outros foram embora; alguns ficaram – mas cada qual na sua. Vez por outra, eu recebia notícias de Kelle e ficava feliz por ela está feliz em sua nova vida. Nos últimos anos, voltamos a manter contato e ela era feliz – era fácil ver nos seus olhos! Principalmente quando ela recebeu o comunicado para assumir o emprego pelo qual esperou por alguns anos.
Há poucas semanas tudo de repente mudou. A felicidade de uma nova vida se transformou na incerteza figurada em uma enfermidade. Doença estranha essa! Em poucos dias, aquela pessoa alegre, dinâmica, passou a lutar apenas pelo direto à vida. E como ela lutou! Sem jamais fraquejar, Kelle acreditou na vida. Enquanto isso, nós vivíamos em meio a um redemoinho que a tudo destrói; parecia um sonho mal que não nos deixava dormir. E ela – ela que estava doente, era quem mais nos dava força...
Infelizmente, a tempestade não trouxe a bonança e, da mesma forma que chegou, Kelle partiu. Foi embora sem fazer alarde. E, mesmo nas horas mais difíceis, ela não permitiu que a dor vencesse o amor. Apenas partiu, sem muitas despedidas. Mais uma vez, o tempo foi cruel e a corrida contra ele foi perdida por ela e por nós. E o tempo levou Kelle para longe de nós.
Hoje, um flashback de todos os momentos passados está vívido em minha mente. Em meio à todas as interrogações, de uma coisa eu tenho certeza – como dizia Renato Russo, “é tão estranho, os bons morrem jovens”. Acho que é por aí. Você foi embora cedo demais porque era especial demais para ficar nesse plano. E isso me faz aceitar a dor da perda sem o desespero do “nunca mais”. Eu sei que você cumpriu bem o papel que lhe foi destinado. Agora, sei que estás para sempre em nossos corações – e que levaste contigo algo de nós. Sei que ficará para sempre gravada em nossas mentes a sua forte presença. Sei também que, nos nossos momentos mais difíceis, nas nossas “barras” mais poderosas, você estará a vigiar, para que façamos a coisa certa.
Olho pro firmamento e as estrelas brilham para mim, sorrindo. Eu sei que você está por lá, brilhando timidamente em alguma constelação. Olho pro chão e vejo flores brotarem na caatinga e sei que você é uma dessas flores, que conseguem sobreviver contra todas as possibilidades. Talvez eu vá olhar o mar. Eu sei que lá também eu irei encontrar você – as ondas representam o vai-e-vem contínuo da vida em sua plenitude.
Kelle, você não morreu pois jamais a sua presença será ausente em nós. É sempre assim. Os bons morrem cedo. E nós que ficamos, os poetas, os loucos, os sonhadores, recebemos a incumbência de observar e relatar histórias de coragem e amor como a sua.
Kelle eu sei que você está feliz em sua nova vida!!!
Fabiana Agra
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário