sábado, junho 09, 2007

Eu tava bebendo. Eu bebo todas as noites. E todas as madrugadas. Eu bebo muito. E eu tava bebendo com o meu amigo Negão. E ele tava tentando me decifrar e pensando que sabia o que tava se passando comigo. O Negão é um grande Cara. E ele pode pensar o que quiser. E eu respeito o pensamento dele. Mas ele não faz nem idéia. Ah, Brother, ele não passou nem perto. E eu bebo mais. E eu vou pra casa sozinho. Tem uma garrafa de Jim Beam aqui em casa que o Gruli me trouxe de presente de Foz de Iguaçu. E eu matei meia garrafa na madrugada de ontem. E eu tô olhando pro resto da garrafa agora. E eu sinceramente, não sei se vou acabar com ela agora. Eu não sei o que vou fazer. Eu tô ouvindo uma bela música do Zé Rodrix. O Zé Rodrix fez umas coisas legais antes de encaretar publicitariamente. Eu tô com o fone de ouvido. Eu tô escrevendo como um possesso. Como faço todas as madrugadas quando chego em casa angustiado. E eu não tô reclamando. Angústia não é exatamente uma coisa tão ruim assim. E eu entendo meu irmão Rubens K querendo ensinar sua gata a beber. E eu entendo a janela aberta. E eu nunca pensei em olhar pro outro lado da rua. Mesmo porque eu sei que do lado de cá é tão perigoso quanto o lado de lá. E eu não tô sequer procurando um lugar seguro. "Quando você vier morar comigo / não esqueça de levar o seu coração". Entendam o significado do que é "singelo". Mesmo porque eu já tentei explicar pra meia dúzia e fui rechaçado. Por isso eu escrevo peças de teatro. E poesia. E ando por aí, meio torto, meio esquizo. Eu queria voltar pra casa e fechar os olhos, e descansar. Mas eu sei que não vou. Eu sei que vou ficar por aí, com esse hellboy causando um estrago nas minhas entranhas. Eu sei que vai ter meia dúzia achando que podem falar o que quiserem, como se eu fosse tão simples assim. Posso não ser grande merda, eu sei que não sou mesmo, mas não sou exatamente tão simples assim. Então talvez eu mate a garrafa de Jim Beam olhando pela janela. Talvez eu recorra a Donavon Frankenreiter ou a Van Morrison. Talvez eu pense em sereias no alto do Empire State. Talvez eu pense em gorilas gigantescos na Ilha de Circe. Talvez eu não queira muito da vida. Minha filha tá nesse momento com suas aflições que são só dela. Eu queria abraçar minha filha e dizer : Isso não vai passar, menina. Isso só vai piorar. Eu sou um péssimo pai. Mesmo porque eu não vou perder meu tempo pintando o teto do quartinho dela com estrelinhas brilhantes. Quer saber? Jim Beam, você me parece um grande amigo.
Escrito por Mário Bortolotto

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