1º de maio de 2002... O Bom Dia Brasil noticia manifestações em vários países: quebra-quebra na Alemanha, confrontos com a polícia na Holanda, protestos irados na França, dezenas de shows de pagode no Brasil – epa! – Esfrego os olhos, aumento o volume do televisor. Não, eu não estou ouvindo errado! No Brasil, dezenas de festividades foram organizadas, prevendo sorteios de apartamentos, automóveis e, claro, os malditos shows. Milhares de pessoas cantando no Parque do Ibiapuera, na Praça dos Três Poderes, na Praça da Bandeira. Por alguns minutos, não entendo o que está acontecendo e vejo o Brasil como o melhor dos mundos pra se viver: o trabalhador feliz, visitando zoológicos, ouvindo os pagodeiros e suas letras chinfrins, fazendo cooper pelos parques... Este é o país utópico a tanto tempo idealizado! O trabalhador finge que trabalha, as empresas fingem que pagam, o Estado finge que cumpre o seu papel e todos fingem ser felizes!
Logo, todo o peso do “real” cai sobre os meus ombros. Realmente, o Brasil não pode ser, jamais, um país sério! Um salário mínimo que é uma piada de mau gosto, o índice de desemprego trafegando no limite do impensável, sem falar de todas as mazelas de uma corrupção endêmica que corrói todas as instituições, e um feriado que serviria como reflexão para milhões de trabalhadores é transformado em pagode?!? Ah, que saudade dos bons tempos, em que a música era forma de protesto... Agora, nem Caetano merece desconto – o Brasil é lindo, o pagode é lindo –, e nem se pode parar pra se ouvir música, porque pouca música se há para ouvir.
Por favor, não pensem em patrulha ideológica, não se trata disso. Apenas volto a ligar o televisor e o Jornal Hoje repete as mesmas notícias. No Brasil se escutam as mesmas músicas, enquanto na Europa as pequenas (r)evoluções dão as suas caras. Bem que eu tento dar um desconto: lá, estão retaliando os forasteiros, aqui estão todos confraternizando... Não. O parêntese não explica nada. Mudo de canal e o verdadeiro reality show se descortina aos meus olhos: chacinas, rebeliões, fome, barraco, encenação. No Brasil é pior. Nossos iguais é que são perseguidos!
Mas, é hora de ficar impassível ao show. Vai começar a Casa dos Artistas (enquanto o Big Brother Brasil não vem). É hora de esperar pela Copa. E pelo horário eleitoral gratuito. Tudo é show; a realidade é manipulada e tudo fica bem. Lula ou Serra, tanto faz. Realmente, o Brasil não é um país sério. Até a França de De Gaulle papou a Copa do penta – e do Galvão. Boa noite.
by Fabiana Agra
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