quarta-feira, junho 06, 2007

A revolta dos livros - por Fabiana Agra

Corria o ano 30 da era pós-apocalipse; vivia-se a era do pós-tudo, na verdade: pós-pós-moderna, pós-nuclear, pós-civilização. O dia 16 de outubro passou a ser lembrado como aquele em que o mundo literalmente explodiu - não houve como evitar a hecatombe nuclear - gangues rivais se degladiavam, usando como armas, ogivas nucleares adquiridas nos países quebrados do leste europeu. E sem que o todo-poderoso nada pudesse fazer, bum! O planeta quase foi pelos ares e pouca coisa restou, quando, após cinco anos de escuridão, o inverno nuclear deixou que o sol queimasse mais forte a tez dos poucos sobreviventes, que, somados nos cinco continentes, não chegavam a cinco mil almas.
O território onde ficava o Brasil foi um dos menos afetados diretamente pela hecatombe, mas as consequências do inverno nuclear foram fatais para seus habitantes: num intervalo de pouco mais de seis anos e meio, só restaram umas 800 pessoas naquele imenso campo agora totalmente devastado – não Amazônia, não Pantanal – apenas algumas vegetações teimaram em resistir, Deus sabe como e com quanto de radiação. Não obstante, nesse lugar agora conhecido por “Novo Mundo”, as pessoas teimavam em sobreviver e, pasmem!, em não esquecer a sua cultura. As bibliotecas – ou o que restaram delas – passaram a ser muito frequentadas, principalmente por aqueles que, por não saberem plantar, gastavam os dias perambulando pelas ruínas das cidades, rapinando o pouco que era colhido da terra envenenada.
Havia na parte nordeste do “Novo Mundo”, uma cidade que, depois da hecatombe, foi denominada de “Deserto Grande”. Os habitantes daquele lugar, que não passavam de 38 segundo a última contagem, não se cansavam de inflar o peito com orgulho por terem, em sua cidade, uma das poucas bibliotecas ainda existentes no planeta. E mais radiantes estavam essas pessoas, pois esperavam chegar à cidade um proeminente bibliotecário que viria tomar conta do valioso acervo. E eis que Victor Friedrich – alemão, explicou que este nome lhe fora dado em homenagem a dois grandes ídolos de seu pai: Victor Hugo e Friedrich Nietzsche - mal saltou da carcaça do velho Citroen transformado em carroça com tração humana, já quis ver os livros.
Chegando ao local onde ficava a biblioteca, não pôde evitar um sorriso repleto de sarcasmo e desapontamento – aquilo ali poderia ser tudo, menos uma biblioteca! Livros misturados à pilhas de jornais velhos e ilegíveis, buracos por todos os lados, infiltrações no teto... Mas não era hora de se maldizer, afinal, era apenas isso que sabia fazer e precisava dos suprimentos e da roupa que a população lhe oferecia, para poder sobreviver com um mínimo de dignidade. Então, deixou o desânimo de lado e passou a fazer um reconhecimento dos livros, tentando colocar ordem onde imperava o caos. Em meio à profusão de títulos, pôde vislumbrar alguns; viu clássicos como Dom Quixote e Os três mosqueteiros misturados a On the road, de Jack Kerouac. E isso não era nada; Dona Beija, O menino de engenho e Dona Flor e seus dois maridos juntos ao Capital e aos livros infantis, que parecia ser o acervo mais numeroso; dava para ver, só num relance, Os três porquinhos, O gato de botas, O menino maluquinho, Rapunzel, O pequeno príncipe e mais alguns. Tinha também um engraçado livro, intitulado O livro do bebê...
O bibliotecário não sabia por onde começar. Em que lugar iria colocar o Kama Sutra? E o que dizer do livro Respostas imbecis para perguntas idiotas? Porém, era preciso seguir em frente e viu Mein Kampf emparelhado a Cem anos de solidão, ambos escorados por um volume do antiquissimo Código Civil Brasileiro. V.F. (era assim que o bibliotecário gostava de ser chamado) exultou quando viu, abandonada num canto de parede, a Enciclopédia Larousse completinha! Ah, tinha livros de Umberto Eco também: O nome da rosa, O pêndulo de Foucault, Como se faz uma tese... Embaixo de uma velha cadeira, encontrou um volume de Anarquistas graças a Deus e outro de A ética protestante e o espírito do capitalismo; pelo menos se salva alguns, pensou.
Após vários dias de trabalho incessante, o bibliotecário deu a catalogação dos livros por encerrada. Colocou cada qual no seu devido lugar e viu que aquilo era bom. Já passava das 2 horas da madrugada do seu trigésimo dia na biblioteca, quando um barulho lhe chamou a atenção; alguns livros haviam caído de uma das estantes. V.F. achou aquilo estranho, já que não havia corrente de ar naquele lugar, as pessoas haviam saído da sala há muitas horas e praticamente não mais existiam animais no planeta, fora as numerosas legiões de baratas. Mesmo assim, rumou para a estante e colocou os livros novamente em ordem. Mal deu as costas, os livros novamente caíram, impulsionados por uma força estranha, que parecia vir de dentro deles. Quando o bibliotecário faz menção de se abaixar, qual não foi a sua surpresa: o livro Mein Kampf se ergueu e sons começaram a sair dele. A princípio, palavras desconexas; alguns minutos depois, era possível entender o que este dizia.
V.F. não sabia se saía daquele lugar correndo ou se ficava para ver até onde aquela situação iria chegar. Por fim, deixou o pavor de lado e ficou observando Mein Kampf a conclamar todos os livros para uma rebelião. “Povo a quem eu escolhi, – o livro dizia – isso é um absurdo; como é que mandam para perto da gente um alemão baixinho e impuro, desvirtuando a raça ariana?! Esse abuso eu não vou deixar acontecer!”. O livro ficou em posição de ataque: totalmente aberto, as orelhas para fora, e chamou todos os outros livros da biblioteca para realizarem a rebelião. Alguns voaram de suas prateleiras e se juntaram ao agora “líder dos livros”; o Código Civil Brasileiro, o Kama Sutra e os livros infantis foram os primeiros a apoiarem a revolta. Mein Kampf continuou o seu discurso: queria expulsar aquele bibliotecário, que chegou modificando tudo, e voltar à velha ordem que até então imperava no recinto. Neste ínterim, o bibliotecário procurava uma saída para aquela loucura; só podia ser alucinação, mas não, estava acontecendo perante os seus olhos! Os livros realmente haviam adquirido vida e estavam ali, tramando contra ele. Alguma coisa precisava ser feita... De início, ele pensou em queimar os revoltosos, mas isso estava fora de cogitação, os livros eram por demais valiosos após o Dia Z e se ele fizesse isso, certamente estaria assinando a sua própria sentença de morte.
Enquanto isso, Mein Kampf já estava rodeado por uns vinte livros. Outros haviam saído de seus lugares e estavam observando de longe a reunião. Apenas a Enciclopédia Larousse, os livros de Eco e mais alguns volumes não saíram da sua rigidez de livros. A revolta seguia seu curso; os livros rebeldes já traçavam o plano de combate que, entre outros atos, previa a morte do bibliotecário. Essa seria fácil de resolver, dizia Mein Kampf; bastava que derrubassem aquela estante pesada lá do canto em cima do bibliotecário e pronto, estava feito. V.F. ouvia tudo sem se mover. Tinha que pensar em algo inteligente - e rápido - ou a sua morte, mesmo que absurda, seria real. Saiu da biblioteca e foi para o quarto onde morava. “Vou mostrar aquele nazista de merda que ele não é de nada”, disse, quase adormecendo.
Na manhã seguinte, V.F. rumou bem cedo para a biblioteca. Tinha certeza que aquilo havia sido um sonho mau, talvez devido à má alimentação dos últimos dez anos. Certamente, quando chegasse, tudo estaria em sua perfeita ordem, obedecendo aos critérios que ele próprio havia estabelecido para os livros. Qual a sua surpresa quando, ao chegar à entrada do acervo, viu uma barricada, construída com milhares de jornais e revistas empoeirados e imprestáveis, que haviam sido consumidos pela insalubridade do lugar. “Escravos do sistema!”, esbravejou V.F.; “esses lumpen filhos da puta são arrastados por qualquer onda, acreditam em qualquer um que chegue falando bonito; mas não é este entulho que irá me deter, ah, não!” E o bibliotecário passou pelo meio daquela turba incólume, pisando muitos exemplares de New York Times, Veja, El Pais, Folha de São Paulo... Quando chegou perto das estantes, deu de cara com os revoltosos, orelhas em riste, prontos para atacar. V.F. se refugiu no saguão da biblioteca, sabendo que havia pouco tempo para decidir o que fazer. Do contrário, em poucas horas aqueles livros ensandecidos iriam tomar conta de tudo e poderiam fazer com que os humanos acreditassem no seu discurso, podendo até dominar todo o “Novo Mundo” e, quem sabe, o mundo! Seria pífio, o fim da história de um planeta, dominado pelas letras de uma civilização extinta por seus próprios pares...
Absorto em seus pensamentos, o bibliotecário notou que Mein Kampf se dirigia até o lugar onde havia se instalado a barricada. O livro líder trazia um fósforo; os livros rebeldes também o seguiam. V.F. ainda tentou, mas não conseguiu evitar que Mein Kampf tocasse fogo na barricada; tampouco conseguiu evitar que aquele louco e seus seguidores também fossem consumidos pelas chamas: os livros tinham uma locomoção bastante lenta, e as línguas de fogo logo os alcançaram. O bibliotecário correu para trazer água e tentar apagar o incêndio. Alguns frequentadores da biblioteca logo se juntaram a ele mas, em pouco tempo, onde antes haviam letras, agora jaziam cinzas. Restos do Código e do Kama Sutra voavam ao sabor do vento; dos livros infantis, nada sobraram, pois todos haviam seguido o lunático, hipnotizados por sua fala e robustez.
O bibliotecário ficou arrasado – logo ele, que devotou toda a vida aos livros, ter sido o pivô da crise! E o que os moradores de “Deserto Grande” iriam pensar? Contaria aquela estória fantástica ou faria valer a versão do incêndio provocado por um cigarro deixado aceso?! Por fim, V.F. achou que seria uma saída razoável dizer ao “Conselho dos Sobreviventes” que o incêndio havia sido proposital, idéia de algum grupo de dissidentes, que logo iria assumir a autoria do atentado. Também, não havia outra saída: quem, em sã consciência, iria acreditar numa “rebelião de livros”? O bibliotecário entrou na sala antes repleta e viu que nem tudo estava perdido; muitos livros estavam intactos e outros tantos poderiam ser recuperados. “Tudo tem uma razão de ser”, pensou. “O que foi queimado será recuperado através de novas estórias, afinal, a história é versão; a verdade jamais será absoluta enquanto estivermos aqui”. Esperançoso, dirigiu-se até à velha mesa e começou a redigir um novo código de ética para a população daquele lugar.


FIM

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