Eu fico sabendo de notícias de amigos que voltam para suas casas. São notícias que me soam como pedras caindo no mar. Sei de amigos que sequer saem de suas casas. E ficam lá com suas mulheres, seus gatos e seus copos de whisky. Alguns pensam que eu, boêmio irredutível, posso sentir desprezo por amigos assim. Mas se tivesse que sentir algo, sentiria mesmo é inveja. Não que eu sinta, quero deixar claro. Mas se tivesse que sentir, seria algo perto desse sentimento mesquinho e bisonho. Ou vocês acham que eu não poderia invejar os seus sofás de quatro lugares? Lembro que um amigo ia casar e ele me perguntou o que devia comprar para sua nova casa. Eu recomendei cruelmente que comprasse um bom sofá. Era onde ele iria passar grande parte de sua vida e a maior parte de suas noites. Fui ainda mais cruel quando disse que ele devia comprar uma boa tv e ter um bom cachorro. Afinal esse seria o individuo que iria tratá-lo com carinho quando chegasse em casa. Crueldade boba de um sujeito inepto como eu, nada mais do que isso. O tipo de comentário cruel que costumo fazer e que pode gerar suspeitas de misoginia. Mas não é nada disso. É só crueldade gratuita de um sujeito inepto. Então sendo assim, porque não iria invejar o seu armário do banheiro com o casal de escovas de dente? Porque não iria invejar o meu amigo que vê o sol nascer resplandecente da janela de seu apartamento? Mal ando vendo o sol nascer. Quando percebo, ele já invadiu a porta do bar e só então eu noto que não estou com os meus óculos escuros. Enquanto alguns amigos meus tomam um farto café da manhã em casa e ganham um gentil beijo de suas mulheres, bebo um pingado no boteco da esquina e sou abordado por uma jovem prostituta.
“Eu te vi lá no bar.”
“Eu também te vi.”
“Então você tava me observando.”
“Não. Eu só te vi.”
Ela já tirando o seu celular e se preparando para anotar.
“Me dá o seu número?”
“Não. Porque eu te daria o meu número?”
“É que eu gosto de homens assim como você.”
“Que tipo de homem eu sou?”
“Mais velho. Gosto de homens mais velhos que fazem bem.”
“Eu não faço nada bem.”
E saio andando. E ela entra em um carro. Ela pareceu não entender. E tem o sol. E eu estou sem meus óculos escuros. E o pequeno quarteirão parece uma gigantesca quadra de Brasília. E eu mexo nos bolsos procurando a minha chave. O porteiro nunca está lá nesse horário. Parece que ele sempre tem algo pra fazer lá nos fundos do prédio. Sequer estranho a sarcástica coincidência. Apenas procuro as minhas chaves no bolso da calça entre os extratos bancários, os cartões usados da Tim, os folhetos de divulgação de peças de teatro e os comprovantes de depósito. Entro na minha kitchenete e a solidão me recebe com um sorriso benevolente. Passo os olhos sobre alguns quadrinhos do Azzarello, coloco “Californication” no aparelho de DVD e vejo o escritor querendo acertar os ponteiros com Deus. Adormeço deitado na rede totalmente encolhido embaixo do cobertor. Não tenho sequer direito de escolher os sonhos que passam na emissora do Sr. Orfeu Marinho. Um cara que acha que o clitóris fica logo abaixo da vagina. Um sujeito com incompetência para gostar de outros seres humanos. Um monstro que devora florestas tropicais e uma praia com um desfile de toalhas coloridas. Acordo sobressaltado e penso nos amigos que voltam para suas casas, suas mulheres, seus cachorros e seus copos de whisky. Quase posso vê-los em sua perene felicidade. Se fosse dado a sentimentos de inveja, sentiria algo parecido. Mas sou um cara sem talento para esse tipo de sentimento. Então penso que se ainda soubesse rezar, pediria pra que eles conseguissem. Eu queria sinceramente que eles conseguissem. Penso que alguém deve conseguir. Eles tem o seu mundo. Eu tenho apenas o meu lugar no mundo. E tem o sol entrando pela fresta da cortina. E tem a garrafa de água a quem eu recorro durante o sono a cada 30 minutos. E tem essa sensação estranha de combate perdido. De proximidade da lona. Ainda me sobra compaixão. Devo dormir com essa idéia feliz.

Nenhum comentário:
Postar um comentário