Não sei por onde você anda. Mas, como de vez em quando você está nesta página — e só de vez em quando, em raros raios de inspiração — achei melhor deixar meu recado aqui.
Peço desculpas por não poder aparecer sempre que deveria, mas é que a vida anda corrida (a minha não, a sua; que além do mais deu para viver entre parênteses) e quase nunca consigo um encontro. Se você está me lendo, é sorte.
Eu sou o você com tempo, ou seja, o que já não é. Aquele que vive mais que as três horas, entre a novela e a meia-noite, quando você dorme e acorda sem mim, ou me deixa em algum canto da pressa, antes de ir ao trabalho. Eu sou o que observa na janela, e dita assunto para suas mãos apressadas preencherem linhas, na vã esperança de, em relendo-as depois, vivê-las ao menos uma vez. Eu vivo por você, enquanto você corre sozinho e só. E quando alguém pergunta “como vai?” sou eu quem conhece a resposta. Mas por educação, André, acho melhor não contar.
Você não sabe dos meus dias, do que ando lendo, com quem converso as conversas que você adia. Sou eu quem vai aos encontros nas mesas vazias, nos almoços só prometidos, nas festas canceladas. O bate-papo no café, a risada de corredor, um site de futebol. Ou a moça que tropeça na rua, o pardal no fio, um formato de poça d’água, o jeito de alguém folhear a revista.
Minha vida, André, é discreta. Ela se esconde na concha e se embrenha por entre as frestas dos gritos, serpenteando ao redor de buzinas, escapando aos compromissos e planos. É imensa como um fio de cabelo. Por onde anda a sua? Em que restaurante, em que bolso de calça, dentro de qual guarda-chuva você a esqueceu?
Veja, o espaço está acabando; não temos muito tempo. Rápido. Marque um cinema, ou melhor, não marque. Mas vá. Tome um chopp, convide para a mesa um amigo distante que provoque silêncios, desertos de intimidade, e faça destes espaços os saltos para a volta.
Anote nas margens de livros, veja fotos antigas, leve um sapato ao conserto, compre frutas, perca tempo. Ao menos uma vez por dia, faça uma coisa que não sirva para alguma coisa. Eu moro nessas inutilidades, e lá estarei, esperando.
Desculpe a maneira um tanto piegas, detesto quebrar suas lantejoulas de leonino. Mas quando percebi seu olhar de papel, um ollhar farto e branco, resolvi intervir. E também porque, justo esta semana, você passou dos limites. Você conseguiu esquecer, André, o próprio aniversário.
Um forte abraço.
Publicado no Guia em O Estado de S. Paulo
André Laurentino
quinta-feira, outubro 11, 2007
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