E o caos do mundo tomando tudo de assalto, mesmo com as janelas fechadas, o barulho de tudo que explode lá fora. Meia hora do mais genuíno desespero de simplesmente não saber o que fazer da vida e de tanta cobrança, não tendo para quem discar, o timbre monótono da chamada em espera e que nunca será retornada.
É isto: querer a realidade com seus dedos de unhas grandes e sujas, que volta e meia infecciona as nossas feridas guardadas sob os esparadrapos ou adormecidas pela quantidade sempre avante de paraísos químicos, alterados e à frente do que possamos chamar de tédio, afinal é esse o alvo que precisa ser exterminado, mas enfim, ele é um gato de sete mil vidas. A vida, sem tirar nem pôr. A vida, você me entende?
Talvez tenha sido isso que a moça de sorriso bonito - dentes brancos a ponto de deixar em quem os fita a vontade de arrancá-los todos e fazer um colar para exibir no peito - não tenha entendido. Querer a vida, com seus atropelos e agonias, a morte respirando quente na nossa nuca todos os dia. Eu quero isso.
O diabetes em tempo de estourar, como o mercúrio do termômetro que mede o calor de asfalto ao meio dia no centro da cidade. A grana curta de uma ou duas faturas pagas e das outras três em atraso e os juros devorando até o tecido fino dos bolsos. Tristeza no seu estado primitivo, embrutecendo os ânimos, o desamor consumindo tudo e alimentando a barba que não pára de crescer. Nada disso ela entendeu. O seu argumento era em planilhas, de peso e dinheiro, escalas inversamente proporcionais. Emagreceu e ficou rica. Desculpa, não quero.
As palavras bem articuladas e devidamente montadas como um jogo de xadrez onde sua mente de tanta informação a ser absorvida em tão pouco tempo fatalmente perderá por xeque-mate, só conseguiam oferecer o paraíso. Não quero, me acostumei ao calor. Não quero emagrecer, nem vou te perguntar como. Não quero uma renda extra para reforçar o orçamento. Não, desculpa, só posso te oferecer solidão com vista para o mar
Que o mundo me livre de outro mundo de pessoas magras, felizes e ricas, do falso aconchego de mais uma “família” moldada pelo interesse comum de estourar a conta com tanta grana e compartilhar o contra-cheque miserável do último emprego, exposto como um demônio exorcizado pelas fotos de tantas viagens ao redor do mundo. Não quero, não posso, é da minha natureza. Desculpa moça, a Herbalife não me interessa.
Rodrigo Levino

Nenhum comentário:
Postar um comentário